Rogerio Luz – Poesia


Deixe um comentário

A Lira Garcilasiana

A lira garcilasiana é modelo de estrofe criado, sob influência do Renascimento, por Garcilaso de la Vega (Toledo, 1500-1531). Compõe-se de cinco versos em que o primeiro, o terceiro e o quarto têm seis sílabas cada um. O segundo e o quinto são decassílabos italianos. Rimas (soantes ou toantes): A/B/A/BB. Muitas vezes usado por Juan de la Cruz em seus poemas, cada estrofe mereceu do autor um comentário místico teológico. Aproveitei-me disso para tratar a estrofe como poema autônomo. Seguem alguns exemplos.

I.

Embora enfrente o risco

(ao dar a ver a ganga da palavra)

do distante olhar crítico,

recebo de outra lavra

o dom do estratagema – pedra rara.

II.

O cego originário

não tem a luz por fim nem o vidente

é nele postulado:

na terra esta semente

não pensa flor nem fruto, ao sol temente.

 

III.

São verbos, são palavras

cortejo estranho de atributo e nome

soprado pelo ar –

nuvem? Nuvem que some

dentro da voz que silêncios retome.

 

IV.

Não tenho pelo Todo

amor ou ódio: apenas vejo a parte

que maravilha o olho

com fragmentos de arte

acima da ruína e do desastre.


Deixe um comentário

Na Noite

Somente o vento?

Somente o vento é notívago.

Ele para nos becos da cidade

para não observar nada, ele é o ar

notívago que respiras

o movimento das folhas da noite

no livro aberto de um céu obscuro

uma lua selada em sua fase nova

o impulso de nuvens lentamente

rebanhos vistos ao longe.

 

Somente o vento vaga

desde a noitinha até

a madrugada de sono ou sangue

de líquido amargo

de alguma água pacificada

em praias de fundo de baía

de lama de um barro incriado

de um fogo extinto no acampamento do silêncio.

 

Somente o vento? Somente, somente.


Deixe um comentário

Enredo para 2013

Temos uma ONG que pede a (ou clama pela)
redução do número de homicídios em nosso país
infeliz.
Eu, ao contrário, solicitaria às autoridades um aumento
considerável, exponencial
dos homicídios e dos suicídios
para provocar um sentimento de revolta e compaixão
em cada um de meus concidadãos.

Também pedi ao sol que não me esquente tanto assim neste verão
pedi à lua que não faça de seu ar distante
um emblema redondo do amor lírico
pedi ao sangue derramado dos assassinados
para lavar minha alma de tantos pecados
(se é que os pecados têm o poder de macular
tanto assim a alma, menos palpável que a própria lua)
pedi aos mortos que não governassem mais os vivos
e à História que nunca mais se repetisse como farsa
pedi aos partidos que se inteirassem da ética
pedi à poética que se tornasse banal
(como uma sobremesa frugal de banana prata)
pedi aos micos-leões que abandonassem o planeta
e que os milhões de animais mortos na estrada
por veículos automotivos
compreendessem os motivos que nos levaram a isso, mas

faltam-me forças para clamar pelo (ou mesmo pedir o)
aumento dos latrocínios
(que, como se sabe, são roubos seguidos de morte
prática comum entre os poderosos
que roubam e matam escolas, merendas, crianças,
moradias, hospitais e hospícios)
aumento dos filicídios e dos uxoricídios
aumento dos parricídios e dos matricídios
em mensagens publicitárias nas embalagens dos laticínios.

Eu que por um tempo acreditei
na íntima relação entre a palavra amante e a palavra homiziado
(desculpem esta interrupção
no cursos de meus pensamentos sem compaixão)
só sei que pedi, isto sim, mais e mais carnaval
aos deuses das florestas auriverdes
às entidades que presidem as matas
matadas e desmatadas
deste nosso país
como se diz
fenomenal.


Deixe um comentário

Viver

É tão amplo, grande, por vezes pesado
viver
que em mim não cabem
(em minha pequena vida)

o tumulto de estrelas
o túmulo de estrelas ao explodirem
a matéria que procura esquecer
do vivo cravado em seu flanco

a contaminar a ferida de seus delírios de partículas
sob as quatro forças até agora irredutíveis à unidade.
Marcas de minha pequena vida
no imenso rio

breve passagem de um peixe pelo imenso mar
o sangue pulsante na artéria comovida
o colapso de todas as palavras
na história que nenhum pobre deus sabe contar.


Deixe um comentário

Noite VII

Comemora na foto
(só memória futura)
todo distanciamento.
É campo santo o instante
quando a imagem submerge
no túmulo do tempo.
Duplo, o chifre da lua
um disco fere e aponta
o cego plenilúnio.
A sombra que agora
cai do rosto do astro –
véu de luz e presságio.
Ao subtrair da aparência
o que ali se demora
fotografa o que parte.